5.2.08

Airton Monte!


Daquele que sou amante de suas palavras tão sinceras e ternas....



"Embora hoje não seja domingo, fui à casa de meu pai fazer-lhe uma rápida visita. Matamos as saudades mútuas e conversamos sobre os carnavais de sua juventude. Antes de ir-me embora, o maior filósofo vivo da rua Dom Jerônimo deu-me uma crônica de sua lavra que li à noite no sagrado recesso do lar e que ora aqui transcrevo:"Me chega aos ouvidos o som de uma canção triste. É o carnaval, antídoto para todos os males da tristeza. No quarto escuro abro os olhos e recordo o tempo mastigado pelo tempo. Quantas cenas desfilam pelas janelas da memória.

Quanta saudade! Quantas letras de música me enchem a lembrança e me afogam de tamanha tristeza. São sambas, marchinhas que rodam na vitrola imaginária do meu pensamento. São serpentinas, lança-perfume, confetes numa batalha interminável. São fantasias coloridas, são máscaras escondendo rostos que se abrem em largos sorrisos. São mãos suadas entrelaçando-se em gestos de amor e de carinho. São desconhecidos abraçando-se com alegria incontida, são lábios ansiosos se colando em juras de amor eterno em meio à dança dos tamborins e cuícas.

Carnaval, festa do povo(que já nem sei mais se ainda é)sedento de euforia na ânsia de esquecer os dramas cotidianos e suas naturais angústias. E lá se vai a multidão de foliões caminhando em busca da felicidade, todos assim pensam e se enganam. Uma felicidade perigosa que se resume a três dias de folia e brincadeira. E depois tudo volta ao que na realidade é. Realidade mais forte e mais dura. Ela vem embrulhada na aventura docemente mentirosa do carnaval. As feridas de sempre, jamais cicatrizadas, se reabrem mais doloridas e mais difíceis de suportar.

Na quarta-feira os sonhos dourados se vão e só fica o eco da canção do poeta que perdeu a amada na multidão do carnaval que passou. Chego à janela, respiro o ar puro da madrugada que a noite já começa a parir. E com ela morrem também os meus sonhos afogados na melodia distante que já quase não ouço. Morro eu também". Releio a crônica, agora com mais vagar e penso que foi escrita por um homem de oitenta e dois anos, mas que ainda não perdeu a poesia de lembrar, de fazer do passado um baú onde reluz e palpita a beleza indelével das memórias."

Texto de Airton Monte retirado de sua coluna de crônicas no jornal